Thursday, April 06, 2017

Silêncio

De monge
No universo onírico em que habito
Acompanho teu silêncio
E em noites enluaradas costumo banhar-me numa cachoeira
Ondinas me segredam canções de ninar
Fados, valsas e sambas de roda
Eu sou toda alma e coração
Feita de amor pulsante
Me olho na face oculta do espelho
Acendo uma fogueira
Salamandras bailam ao som de um blues
Como se diz eu te amo em sânscrito?
Leio e releio a carta de Paulo
A madrugada assobia seu nome
E a solidão amaldiçoa o medo
Meu verbo
Minha carne
Minha pele
Meu ermo
Na chuva surgem fogos de artifício
Santo anjo do senhor...
Talvez seja amor
Ou precipício.
Alyne Costa, 4/04/+7

Amar Tanto e Até Morrer


As tuas memórias no Facebook
Alyne, as memórias que partilhas são importantes para nós. Pensámos que gostarias de recordar esta publicação de há 3 anos.
Onde mora a minha dor?
Habita o meu silêncio e permeia meus sonhos.
Desenha a minha distância nos morros de um caderninho encantado.
A minha letra borda em suas páginas correspondências.
Cartas de amor.
Cartas de despedida.
Cartas de boas vindas.
Algumas lições de esperança capturadas no olhar da menina de tranças.
Onde mora o meu perdão?
Nas flores de maio que nascem na palma de minha mão.
No meu velório e na minha primeira comunhão.
Numa saudade que transborda as veias do coração.
Veias e esquinas.
Veias e alamedas.
Veias e praças repletas de flamboyants.
Onde moram meus vícios?
Na sede de desespero e riscos.
Nas chagas da incompreensão.
No abandono e na solidão.
Na solidariedade e no dividir o pão.
Onde mora o meu amor?
No meu olhar que mareja.
Na alma que inteira viceja.
No corpo que ele beija.
E até numa certa agonia...
Que persegue noite dia...
Este peito de poeta.
Que já não reconhece as setas de ser só e uma só ser.
E, por tristeza ou quebranto, capaz de causar espanto.
Ama tanto e até morrer.
Alyne Costa
30/06/11

Thursday, March 30, 2017

Escudos

Ela gosta de roupas claras
E de sentir leveza na alma
Gosta de pessoas do bem
E perfume de alfazema
As vezes chora em calundú
De alegria ou de dor
Noutras é como um raio
Um clarão na tempestade da vida
Gosta de músicas suaves e batuque de tambor
Transmite serenidade, muita luz e muito amor
Faz preces
Acende incensos
É de fibra e de fé
É anjo e é mulher
Gosta de cheiro de mato
Gosta do povo de santo
Que tira maldade e quebranto
Traz no peito uma medalha
O seu cálice é de amor
De flor de verdade e amizade
E seu peito é um escudo
De luz e prosperidade.

Alyne Costa, 30-03-17

Para Margarida Ornelas

Sunday, March 26, 2017

Porta Retrato

Estou no cais de madrugada
No latifúndio da solidão
Flor serena serenando
Minha comigo-ninguém-pode ressuscitou
Virei cigana envolta em cetim brocado amarelo

Sete vezes a espada do Arcanjo quebrou o feitiço
Agora, amo em paz, sem reboliço
As vezes durmo em seu colo moreno
Que, no frio, me acolhe e acode
E já não guardo segredo

No meu peito, cravados como punhais
Cochicham os girassóis de Van Gogh
Tristes e quase apagados, desgastados pelo poente
E em algum canto guardado
Está aquele poema do guardanapo

Sou barroca e minha sina é em rococó
Se ando descalça é porque quebrou meu salto
E humildemente rogo-te um trato:
Vela para que os dias sejam limpos como o sol
Que numa hora solta lhe envio por e-mail
Um alfazema, um verso, um retrato e um beijo de batom barato.

Alyne Costa, 26-03-17


Friday, March 10, 2017

Segredos

As minhas mãos são plataformas firmes
Os meus pés seguem em passos fortes
O meu olhar é sereno da madrugada
Da lua encantada que me abrigou
E o tempo clareia meu destino
Voando numa nebulosa
Ando até atrevida
De braços dados com a vida
Guardo um segredo no cofre do coração
Faço preces de ciganas
Defumo a casa
Canto pra todos os anjos
E, ainda, com sorriso de menina
Recomeço a sonhar
A minha poesia passeia
Por florestas e por oceanos de mitos
Faço chá encantado pra ter sonhos de amor
E tatuado no meu peito:
O rodopio de um beija-flor.

Alyne Costa, 10/03/17

Saturday, March 04, 2017

De vez em quando você para numa esquina da vida e vê quanta estrada já percorreu...
Quantos caminhos trilhados, quanta pressa desnecessária, quantas palavras proferidas ao acaso que nunca deveriam ter saído.
A quantas pessoas você se doou e tão poucas ficaram.
E nessa esquina da vida já com alguma maturidade você se percebe consciente que a vida é seletiva por mais que você não seja. Indefectivelmente a vida seleciona quem fica e quem vai.
Eu gosto das coisas simples, das pessoas simples, de quem não faz alarde, de quem se dedica a sutilezas e detalhes.
Esse carnaval parou em minhas mãos um livrinho de Paulo Coelho da revista Caras. Eu não tenho vergonha de dizer que gosto de Paulo Coelho. Acho ele um grande contador de histórias... E, decididamente, não é um momento em minha vida pra ler Nietzche. É um momento pra ler coisas leves, acender incenso, fazer orações, encontrar pessoas leves, parecidas com você, mais preocupadas com um mundo melhor que com a conta bancária.
A vida requer pausas, atalhos, cheiro de terra molhada, visões de anjos, meditação e poesia.
Estou dando uma pausa na vida. Estou me dando ao luxo de ser extremamente irresponsável. Pois não é que foi num livro de Paulo Coelho que eu aprendi que a raiz latina da palavra responsabilidade é a capacidade de responder, de reagir. Nesse momento eu literalmente não tenho capacidade de responder.
Outro dia eu tava numa consulta odontológica e a dentista muito doce que me atendeu me disse que a gente vive num mundo que a gente não pode dizer nem aonde a gente trabalha porque as pessoas se tornaram abusadas demais.
Eu que me achava a maluca da história me dei conta que não estou sozinha. Eu sou fichinha. A sociedade está extremamente adoecida e isso é falta de uma visão espiritual da vida. É falta de fé. É falta de se permitir amor. É falta de ética e é falta de sensibilidade.
Virou uma confusão e eu tô fora, viu? Tô avisando que tô fora dessa vibe maluca. Quando estudei Barroco com Madalena Ferreira, ela falava que esta era a arte do desequilíbrio e que quando o artista tá desequilibrado ele exagera. A humanidade tá exagerando. E eu não tô nem aí. Dou graças a Deus quando a bateria do celular descarrega, aprendi a falar com poucos, a acreditar em poucos, a me entregar a poucos, mas a me dedicar a causas mais nobres.
Só leio o que quero, só falo com quem eu quero, mas amo. Amo e muito. E não vou desistir de amar, mas gente falsa, oportunista e interesseira tô fora. Só faço o que eu gosto. Só como o que eu gosto.
A vida foi extremamente seletiva e esse novo caminho que estou trilhando é cheio de magia.
É leve, suave e, docemente, irresponsável. E vou cantar Raul! "Ô Ô Ô seu moço do disco voador, me leve por aí pra onde você for... Ô Ô Ô seu moço..."
Alyne Costa, 4/03/17

Tuesday, February 14, 2017

Sereias

As sereias atômicas retornaram
Com seus colares de cavalos marinhos
Trazendo pra perto a energia do mar
Ou de um vale repleto de porcos-espinho

As sereias vestiam-se de dourado
E chafurdavam graças por toda parte
Á cada mulher um homem amado
E um pouco de talco trazido de marte

As minhas canções são agora discretas
Como são discretas toda minha dor
Mas vamos deixar as janelas abertas
Para de vez entrar o amor

As sereias sorriram com um lindo semblante
E a esperança se realinhou
A alegria vindoura será melhor que antes
Colando o peito que se desfacelou.

Alyne Costa, 14/02/17

Monday, February 13, 2017

O bem te vi cantou baixinho
Sou somente um passarinho
Queria lavar calcinha
Mas sou podre na preguiça
Aqui ninguém é perfeito
E tudo é somente passagem
Canções me remetem a um tempo
De obscuras miragens
Posso ser bruxa ou santa
Ir comprar pão na rodagem
Me alimento de poesia
Essa é minha fantasia
Um sono que não tem fim
Mas é bem feito pra mim
Agora, me dá um tempo
Que vou é cuidar de mim.

Alyne Costa, 13/02/16

Sunday, February 05, 2017

Me recomendaram uma canção de Zeca Baleiro que diz: "vejo os pombos no asfalto... eles sabem voar alto, mas insistem em catar as migalhas do chão."
Desde que nascemos fomos sentenciados por dois grilhões: o medo e a culpa.
E é esse medo que nos paralisa e nos impede de atingirmos o topo das nossas montanhas. É o medo de ser diferente, de não ser aceito, de correr riscos, de discordar e até de não agradar, de não ser amado, correspondido. Assim, a gente não mergulha no mar porque naquela praia alguém já se afogou, assim, morrendo de medo, a gente perde o sumo da vida, que, escorrendo por entre nossos dedos, se esvais. E não tem retorno.
E de tanto medo que nos é embutido nessa cadeia que se passa de um pra outro, a gente não diz que ama quando ama, a gente não ouve que é amado quando está sendo amado, a gente não diz que está sentindo saudade, a gente não liga, a gente não procura, a gente tem vergonha de algo que aconteceu... Porque é certo que a rejeição é muito dolorosa, mas certamente é muito mais lamentável o não viver.
O outro grilhão é a culpa, aprendemos desde miudinhos a culpar nosso amiguinho por aquela queda de bicicleta, a nossa amiga apaixonada por aquela nota baixa e vamos botando sempre nas mãos dos outros a responsabilidade por nossos erros. De fato, é muito mais confortável agir assim que mudarmos de postura, rompermos com velhos padrões, doar ao tempo o que não nos serve mais. É indispensável descobrir que só crescemos quando tomamos em nossas mãos as rédeas de nossas vidas, quando paramos de delegar a terceiros a responsabilidade por nossos atos e decisões. Aprendemos também a morrer de culpa quando erramos. Não, não adianta. Adianta seguir em frente e agir, tentando um caminho diferente.
E entre tantos medos e culpas, acabamos achando que não merecemos. Não merecemos estarmos equilibrados quando a maioria desequilibra, não merecemos sorrir pois a humanidade se acostumou a nos ver chorar, não merecemos comer fora porque não somos ricos, não merecemos brilhar porque assim vamos ofuscar alguém, não podemos viver o presente porque nosso futuro será uma tragédia.
Não somos pombos, somos seres humanos, falíveis, verdade, mas podemos e merecemos construir uma vida melhor.

Alyne Costa, 6/02/16

Wednesday, January 25, 2017

Façamos amor, mas façamos arte!




O contato do ser humano com uma obra de arte, faz emergir um novo ser. Ninguém é intangível à arte em suas diversificadas formas de manifestação. Não é vista apenas pelo olhar, mas pelos sentidos, captada, ainda que indiscernível, abre fendas, labaredas em todos que com ela se deparam. Cegos, crianças, fanáticos, “loucos”, “mutilados morais”, se o olho vê a arte, vai além.
Segundo o artista plástico Almandrade: “a arte produz efeitos imprevisíveis e é preciso entende-la sem descreve-la”. E quem se atreveria a equacionar o seu alcance? A obra de arte transbora a pré-intenção do artista, reflete no espectador, transformando-o num homem novo. Quantas vezes não mudamos, não alteramos as nossas perspectivas perante relacionamentos e fatos após ouvirmos uma canção? E a mesma canção pode nos trazer leituras diferentes acerca da mesma realidade.
Não pretendendo adentrar no “mito da incompreensibilidade” da arte e sim a necessidade de utiliza-la como fato social propulsor de uma nova ordem: Se o homem muda com a arte, esta transforma o mundo!
O mundo moderno e suas neuroses tem na arte a sua mais sadia forma de profilaxia. Todos nós precisamos de angústias, crises existenciais, temores e fobias. Precisamos tanto que às vezes criamos problemas onde não existem. Precisamos de uma certa dose de loucura para que a vida não se torne morna ou sem sentido. Sem sofrimento qual paixão humana nos afundaria para que aprendêssemos a voltar à superfície novos, experientes, mais ternos e mais humanos?
Assim, amados, consumam menos drogas e mais arte!
“Poetas, seresteiros, cancioneiros, ouvis...”
A arte é a veia aberta da verdadeira revolução. E o artista? É todo aquele que aprendeu que a criatividade, da Ecologia à Bio-Medicina é a grande “sacada” para a nossa convivência “sustentável”.
Segundo Miguel Torga: “De quantos ofícios há no mundo, o mais belo e o mais trágico é o de criar arte. É ele o único onde um dia não pode ser igual ao que passou. O artista tem uma condenação. E o dom de nunca poder automatizar a mão, o gosto, a enxada. Quando deixar de descobrir, de sofrer a dúvida, de caminhar na incerteza e no desespero, está perdido.”
Assim, somos neuróticos, desesperados, sedentos de coisas novas, apavorados, inseguros, mas duvidamos. Sim, duvidamos! E alguém se lembra de que mesmo a dúvida é o preço?
Portanto, amados, não somos canhões, somos canários...
E façamos carinhos com nossos cantos, façamos amor com a intensidade dos nossos desejos, mas façamos arte com nosso suor!

           Beijos na alma.
           Alyne R. N. Costa
          Brumado, 4 de maio de 2006

Monday, January 23, 2017

Ah, a vida e suas vicissitudes.Há aquela idéia que não devemos fazer com os outros aquilo que não queremos para nós mesmos.
Mas sábado me veio uma luz ante uma situação que está me deixando extremamente instável emocionalmente, é querer ajudar e não ter como. Então, deduzi que também a gente não deve desejar a nós mesmos o que não queremos para o outro
Até ajudar tem um limite, e, como disse minha amada Iramaia: "É como emprestar dinheiro a alguém, devendo R$5.000 ao banco.
Existe em mim muito da formação jesuíta, aquela religiosidade de nunca dizer não, oferecer a outra face.
Mas a vida, as pessoas não são brincadeira, muitas vezes são invasivas, caras de pau, maldosas e nós mesmos quantas vezes também não somos assim?
Devemos e é urgente primeiro perdoar a nós mesmos e depois perdoar o outro. E como disse Drummond: "Não, meu coração não é maior que o mundo, nele não cabem nem as minhas dores".

Alyne Roberta Neves Costa, 23/01/17

Sunday, January 22, 2017

O cotidiano nos traz surpresas. E, se tivermos, olhos atentos, veremos que a vida é saborosa...
Ai você lembra aquela musiquinha do Titãs: "É preciso saber viver."
Ontem no início da noite eu fui tomar um sorvete, baby. Acho que há uns trinta anos, tomo o mesmo sabor de sorvete, crocante, brigadeiro e cobertura de chocolate. Algumas coisas consagramos em nossas vidas. E esse sabor de sorvete pode bem ser o sabor da minha adolescência, daquele tempo que eu era tímida e tinha vergonha do meu cabelo.
De repente, quando o sorvete já havia acabado surge uma senhora muito simpática com uma bela menininha. Pà, olhei e reconheci e perguntei:
-A senhora é a Professora Graça Belov?
Ela confirmou e eu prossegui.
-Eu sou sua fã. Infelizmente não fui sua aluna, mas em certa ocasião assisti uma entrevista sua na TVE e me emocionei. A senhora usou a seguinte frase: "O direito é uma erva daninha!" E aquela frase me tocou profundamente porque de fato o Direito é uma erva daninha. Ele se esparrama.
Ela sorriu e eu me apresentei. Disse o que fazia e ela achou uma gracinha.
Depois perguntei se a linda menina que a acompanhava era sua neta, ela, depois de acrescentar que já tinha neta casada, disse que era a neta caçula.
Eu senti uma felicidade imensa em declarar aquele sentimento que nutria por ela. Porque eu sou assim um poço de sentimentos e a vida, as complicações, o leque de relações as vezes nos inibe, nos murcha e nós não nos proporcionamos o sentimento de bem estar que pode advir da magia do cotidiano.
Podia ser só um início de noite e um sorvete, mas foi bem mais que isso.
Foi a lembrança que o "Direito é uma erva daninha".
Foi ouvir a netinha dizendo, depois que eu já havia me despedido:
"-Minha avó! Ela é sua fã!"

Alyne Costa, 22/01/17