Monday, June 04, 2007

A Menina e a Tesourinha



Gravura retirada do site: http://www.tkoisas.com.br/ca_49_60_bonecas_papel.htm



A menina e a tesourinha

Havia um tempo em que menina brincava de costureira com bonequinhas de papel. Eram vendidas em cartelas. Recortava-se as bonecas com suas cabeças enormes e suas roupinhas. E elas tornavam-se enfermeiras, colegiais, personagens de contos de fadas.
E assim, estilista mirim de sonho e alegria, a imaginação ganhava mundo.
Era uma época também de reunir os retalhos de minha avó e preparar as roupinhas da Suzi de cabelo cortado por um mão nada destra.
E, assim, naquele zigzag de uma máquina de sonhos, os recortes de tecido ganhavam vida e a tesoura deslizando nos tecidos e papéis, cortavam a inquietação que cresceria com a menina até chegar-lhe a ciência de que tentações lhe traziam a arte.
Bonecas poderiam ser de plástico ou uma soberba Barbie em seu salão de beleza. Todas de igual valor.
E a menina ia tecendo seus sonhos, costurando afetos e aparando dúvidas.
Anos depois outros recortes seduziriam a menina: a audácia de Matisse.
E ela se pôs a recortar medos, angústias e opressões.
Ora com versos e ora com preces.
Ajoelhada ante imagens de santos, índios e caboclos. Pretos-Velhos e Orixás.
Talvez de tantos recortes tenha emanado o sincrético. A crença nos três reis magos e a permanência das orações.
Talvez da mão que manuseava a tesoura nas bonequinhas de papel tenha nascido as mãos que afagam através da arte e da poesia as dores que não lhe pertencem, mas que se tornam suas na percepção de que sonho e dor também se divide.
E assim, docemente, na mulher que amadurece, renasce a menina a fundar reinos com sua tesourinha.





Alyne Costa


Brumado, 4/06/07

5 comments:

Leila Lopes said...

Alyne, do tempo das tesourinhas resta em nossas mãos o sonho da vida inteira, a vontade do corte preciso iniciou há tempos, não é verdade?
Beijos

Fabrício Brandão said...

Querida Alyne,

Que belo texto! Tesourinhas manuseadas pela graça infantil caminham no tempo, levando consigo os recortes do impulso humano. Mais do que um mero rito de passagem, a alma mesma avança assim, pelo dever-ser das coisas todas fundadas em mistérios.

Beijos, querida!

Miguel said...

Poeta Alyne Costa,
minha linda menina de Caetité,
teu texto é muito terno, cativante e nos deixa com a sensação de que suas bonecas e nós com nossas bolas de gudes transparentes e albinhos de figurinhas em saquinhos de papel que se comprava na banca do jornaleiro, é um tempo onde, pelo menos aos nossos olhos, a maldade ainda não existia, e a gente dava bom dia aos vizinhos, e amava o português da quintanda,
meu beijo poeta instigante

Adriana said...

... e a menina (agora poeta) continua tecendo afetos e aparando dúvidas... :-)

Beijo, Lyne

Adriana said...

Da época em que eu ainda escrevia para a Usina, eu tenho um texto, com essa mesma temática... lembrei-me dele agora..

http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.phtml?cod=82354&cat=Poesias

Beijinhos.