A Menina e a Tesourinha

Gravura retirada do site: http://www.tkoisas.com.br/ca_49_60_bonecas_papel.htm
A menina e a tesourinha
Havia um tempo em que menina brincava de costureira com bonequinhas de papel. Eram vendidas em cartelas. Recortava-se as bonecas com suas cabeças enormes e suas roupinhas. E elas tornavam-se enfermeiras, colegiais, personagens de contos de fadas.
E assim, estilista mirim de sonho e alegria, a imaginação ganhava mundo.
Era uma época também de reunir os retalhos de minha avó e preparar as roupinhas da Suzi de cabelo cortado por um mão nada destra.
E, assim, naquele zigzag de uma máquina de sonhos, os recortes de tecido ganhavam vida e a tesoura deslizando nos tecidos e papéis, cortavam a inquietação que cresceria com a menina até chegar-lhe a ciência de que tentações lhe traziam a arte.
Bonecas poderiam ser de plástico ou uma soberba Barbie em seu salão de beleza. Todas de igual valor.
E a menina ia tecendo seus sonhos, costurando afetos e aparando dúvidas.
Anos depois outros recortes seduziriam a menina: a audácia de Matisse.
E ela se pôs a recortar medos, angústias e opressões.
Ora com versos e ora com preces.
Ajoelhada ante imagens de santos, índios e caboclos. Pretos-Velhos e Orixás.
Talvez de tantos recortes tenha emanado o sincrético. A crença nos três reis magos e a permanência das orações.
Talvez da mão que manuseava a tesoura nas bonequinhas de papel tenha nascido as mãos que afagam através da arte e da poesia as dores que não lhe pertencem, mas que se tornam suas na percepção de que sonho e dor também se divide.
E assim, docemente, na mulher que amadurece, renasce a menina a fundar reinos com sua tesourinha.
Alyne Costa
Brumado, 4/06/07
Comments
Beijos
Que belo texto! Tesourinhas manuseadas pela graça infantil caminham no tempo, levando consigo os recortes do impulso humano. Mais do que um mero rito de passagem, a alma mesma avança assim, pelo dever-ser das coisas todas fundadas em mistérios.
Beijos, querida!
minha linda menina de Caetité,
teu texto é muito terno, cativante e nos deixa com a sensação de que suas bonecas e nós com nossas bolas de gudes transparentes e albinhos de figurinhas em saquinhos de papel que se comprava na banca do jornaleiro, é um tempo onde, pelo menos aos nossos olhos, a maldade ainda não existia, e a gente dava bom dia aos vizinhos, e amava o português da quintanda,
meu beijo poeta instigante
Beijo, Lyne
http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.phtml?cod=82354&cat=Poesias
Beijinhos.