Saturday, December 06, 2008

Dia Especial


Um dia especial pode se esconder numa caixa antiga de fotografias e correspondências, pequenos mimos de amigos que não vemos mais ou porque tempo e destino os levaram ou porque a própria vida nos faz assim: teia de relações.

Para um dia nascer especial não precisamos ir ao japonês mais caro, basta abrir um velho livro de receitas e inventar saladas e uma sopa caprichada, encher os olhos com cores de temperos, cortar o dedo na faquinha de serra.

Deixar-se embevecer com um cd ganhado de presente com direito a ouvir Elomar. Pensar que é da roça. Ouvir cantoria enche um dia.

Arrumar o guarda-roupa e ver quanta coisa inútil guardamos em nossas gavetas. E nas gavetas da alma?

A vida requer faxinas íntimas, libertar-se de padrões e vícios, manias, pensamentos que aprisionam e cerceam nossa capacidade de criar, inovar e estar aberto para que novas emoções possam chegar até nós e nos tornar novos para acompanhara vida que não possui ritmo único.

Um dia especial pode começar com uma faxina íntima.

Permitir-nos sentir saudade, acender um incenso, fazer preces pelos que amamos ,e pelos que não nos desejam o bem.

Um dia especial pode começar ouvindo um canto de passarinho que sobrevive na selva de pedra e faz ninhos nos arranha-céus.

Um dia nasce legal com um telefonema a um amigo apenas para dizer e ouvir um “oi, eu te amo”.

Um dia pode ser perfeito sem que tenhamos que ir ao bar da moda, sem que necessitemos ir ao shopping e sem que precisemos gastar muito.

O melhor dia da vida não custa nada se você para um minuto para ouvir alguém porque muitos dentre nós não possuem com quem conversar.

Um dia especial começa com um banho de alfazema e depois uma roupinha fresca e sair andando meio que sem destino, apenas pelo prazer de caminhar e de sentir-se vivo.

Uma vida especial começa quando você faz de cada dia um ritual de pequenos prazeres.

Sunday, November 30, 2008

Lição de Generosidade


Vinha soberana de sobrinha, fazendo caso algum da chuva que caía e eu pensei na garra daquela mulher com seus oitenta anos enfrentando a chuva, só e desfilando em direção ao ponto de ônibus.

Pensei ainda na graça sua, na singeleza dos adornos, na maquilagem, na roupinha bem passada e vi ela se benzer em frente à capela do português.

Estava parada no ponto de ônibus e ela se aproximou e me disse:

“Seu semblante é sereno e seus olhos sorriem. Seu sorriso traz a beleza de seu coração.”

Nossas sobrinhas se uniram e ela me declamou uma poesia, falava sobre Generosidade.

Não raras vezes o universo escolhe pessoas que sequer conhecemos para acender a chama do nosso coração.

Amigos não conseguem falar, família não consegue entender, colegas têm prioridades demais e a gente precisa prestar muita atenção no que o Universo nos diz.

O Vale dos Rios chegou e ela previu minha ansiedade:
“Vai, meu bem, vai pro seu trabalho...”

Só deu tempo de dizer que ela também era linda e adentrei o buzú.

O cobrador fez cara feia ao dar o troco.

Ah, cobrador, vai ler poesia...

E a BUSTV falava sobre Munique, suas belas Igrejas, seu rio, uma cidade inundada de verde. E me deu vontade de novo de aprender alemão e conhecer Munique.

Segui o dia, sabendo não ser triste meu fim...

Ciente de ser alegre o dia e cada batalha que ele nos traz.

Segui, levando na alma a doce lição da generosidade.

Alyne Costa, novembro de 2008

“Enquanto o tempo não trouxer seu abacate, amanhã será tomate e anoitecerá mamão”

Gilberto Gil

Monday, November 17, 2008

Se eu Pensasse Um Poema


Se eu pensasse um poema, teria ele a mim.

Não seria broto, nem jorro.

Seria o inverso.

Não rangeria os dentes.

Não guardaria a casa.

Não seria lobo, nem cão.

Seria poeminha de estimação.

Se eu pensasse um poema não seria ele a dor.

Porque um poema me explode.

Me abre, me rompe, me cega e me guia.

Um poema não me vive.

Um poema não me come.

Não me embriaga.

Não me mata a fome.

Não me castiga.

Nem mimo, nem intriga.

Se eu pensasse um poema não seria ele esta cor indefinível do crepúsculo.

Das sombras e sobras nos meus contornos.

Nas minhas margens.

Nas minhas sondagens.

Nas minhas obscuras:
Paisagens.

Salvador, novembro de 2008

Sunday, November 09, 2008

Apartada do Cálice


Quando não há mais cálice

Nem mais carne

Nem verbo que aparte a poesia que dobra a alma

Meus Deus, me abraça...

Me pega no colo.

Faz tua vontade.

Te acerca de mim e de meus devaneios.

Emudece meus delírios.

Amansa a ira.

Quando não há mais cálice.

O que apartarás de mim?

Bendigo esta paz que me deste neste fim de tarde.

Essa chuva que cai e que molha os meninos.

Que encharca a terra e traz esse cheiro que me lembra vida.

Bendigo esta chuva, este canto de pássaro, essa fé acesa aqui dentro.

Quando não há mais cálice, pai.

O que apartarás de mim?


Alyne Costa
Salvador, novembro de 2008

Tuesday, October 28, 2008

Sobra de Canção


Restam as minhas sobras, levadas ao vento...
E eu me pergunto o que não sou?
Desde que não estou junto a ti?
Tudo é difícil...
Vejo o amor como um parque repleto de alegorias.
Gangorras e almofadas coloridas.
Espero uma resposta na chuva que desaba em mim:
Lembranças, fragâncias, fotografias e questões.
Triste eu abro os olhos e vejo o amor.
Desenho meu retrato nas paredes dos banheiros.
Risco versos obscenos.
Corto minha alma em fina lâmina.
Nada sangra...
Apenas uma distância que não aparta, nem divide.
Surgem visões de pássaros e rãs...
Um piano toca só.
Acordes por nós dois.
Datas marcadas na agenda.
Esperas, compromissos, filmes adiados.
Encontro marcado com a solidão.
Monólogos, teses, coisinhas inúteis...
Poemas abortados.
Faço minha a chama da sua solidão.
Arrisco previsões.
Desligo todos os telejornais:
Chacinas, política, arriscadas econômicas...
Abraço o travesseiro e sonho.
Qualquer coisa me mostra pulsos cortados...
Corpos mutilados, carbonizados, canções boêmias como não se fazem mais...
Sirenes ressoam:
Polícia ou Ambulância?
Nada me assusta, apenas dói...
Enquanto aguardo a vida voltar a cantar cantigas de roda, cantigas de amigo, cantigas de amor...
Cantigas de Paz...
Ai, mundo diferente...
Gente assustada.
Amordaçada.
Gente com medo de gente.
E eu canto uma canção que não sei.
Uma canção que passará.

Alyne Costa
Salvador, agosto de 2007

Saturday, September 06, 2008

Namoro de Praça

Arte de Henrri Matisse





Amor de praça é amor de graça

O caboclo do alto apenas vê, atado à sua condição de estátua.

Camponesas, Apolo e Diana abençoam o beijo ateu.

O pastor prega.

Crianças passeiam, festivas e belas.

Desfilam meias coloridas e o algodão-doce pincela o céu.

O namorado avassala um beijo.

E o chafariz mija de rir.

O coreto mudo chora a nostalgia...

De um tempo que amar não custava nada.


Salvador, 4/02/04

Sunday, July 20, 2008

Façamos Amor, Mas Façamos Arte!


O contato do ser humano com uma obra de arte, faz emergir um novo ser. Ninguém é intangível à arte em suas diversificadas formas de manifestação. Não é vista apenas pelo olhar, mas pelos sentidos, captada, ainda que indiscernível, abre fendas, labaredas em todos que com ela se deparam.

Cegos, crianças, fanáticos, "loucos", "mutilados morais", se o olho vê a arte, vai além.

Segundo o artista plástico Almandrade: "a arte produz efeitos imprevisíveis e é preciso entende-la sem descreve-la". E quem se atreveria a equacionar o seu alcance?

A obra de arte transbora a pré-intenção do artista, reflete no espectador, transformando-o num homem novo.

Quantas vezes não mudamos, não alteramos as nossas perspectivas perante relacionamentos e fatos após ouvirmos uma canção?

E a mesma canção pode nos trazer leituras diferentes acerca da mesma realidade.

Não pretendendo adentrar no "mito da incompreensibilidade" da arte e sim a necessidade de utiliza-la como fato social propulsor de uma nova ordem: Se o homem muda com a arte, esta transforma o mundo!

O mundo moderno e suas neuroses tem na arte a sua mais sadia forma de profilaxia.

Todos nós precisamos de angústias, crises existenciais, temores e fobias. Precisamos tanto que às vezes criamos problemas onde não existem.

Precisamos de uma certa dose de loucura para que a vida não se torne morna ou sem sentido. Sem sofrimento qual paixão humana nos afundaria para que aprendêssemos a voltar à superfície novos, experientes, mais ternos e mais humanos?

Assim, amados, consumam menos drogas e mais arte!

"Poetas, seresteiros, cancioneiros, ouvis..."

A arte é a veia aberta da verdadeira revolução.

E o artista? É todo aquele que aprendeu que a criatividade, da Ecologia à Bio-Medicina é a grande "sacada" para a nossa convivência "sustentável".

Segundo Miguel Torga:

"De quantos ofícios há no mundo, o mais belo e o mais trágico é o de criar arte. É ele o único onde um dia não pode ser igual ao que passou. O artista tem uma condenação. E o dom de nunca poder automatizar a mão, o gosto, a enxada. Quando deixar de descobrir, de sofrer a dúvida, de caminhar na incerteza e no desespero, está perdido."

Assim, somos neuróticos, desesperados, sedentos de coisas novas, apavorados, inseguros, mas duvidamos. Sim, duvidamos!

E alguém se lembra de que mesmo a dúvida é o preço?

Portanto, amados, não somos canhões, somos canários...

E façamos carinhos com nossos cantos, façamos amor com a intensidade dos nossos desejos, mas façamos arte com nosso suor!


Alyne R. N. Costa

Brumado, 4 de maio de 2006

texto publicado no site http://www.aldeianago.com.br/

Friday, July 11, 2008

Salve Jorge


Viva são, viva são, viva São João

Salve São jorge

Salve abril, fevereiro, o ano inteiro

Salve São Jorge

Salve são, salve são, salve são

São Jorge Aragão

Salve assim, salve assado

ateu, consagradao

São Jorge Amado

Salve assim, sereno, tranquilo

São Jorge Vercilo

Salve em ré menor, Salve em dó maior

Salve bem, salve bem, salve bem

São Jorge Bem Jor

Salve toda luz

o sinal da cruz

as armas de Jorge

Viva Santo Antonio, São Sebastião

Salve São Jorge

Das estrelas

De toda lua

Minguante, Crescente, Cheia e Nova

Gente, Salve São Jorge

Que brilha no céu

Sobre o seu cavalo

Pela Capadócia

Por toda audácia

Salve São, Salve São, Salve São

Salve São Jorge


Alyne Costa

maio de 2008

Friday, March 07, 2008

A Chuva Escorre Em Mim

By Alyne Costa


A chuva escorre em mim. Cai forte feito tempestade sobre meus alicerces. As coisas que acredito passam a boiar.

Segredos, medos, amores, projetos e sonhos bóiam obstinados, resistentes...

A tempestade afasta a solidão e o barulho da chuva canta antigas modinhas de um tempo que sequer me pertence, removendo as falsas angústias.

Ensaio respostas para as dúvidas do dia. Travo monólogos sobre teses que não dissertei para uma platéia invisível que zomba e vaia. Cai às gargalhadas. Não, quase cai, apenas se inclina sensualmente pela força gregária de ter grupo.

Abraço a solidão e a verdade. A força de permanecer inteira enquanto cato os cacos de quantas já fui.

Voam pela mente projetos sociais, abraços de tia, manchetes, pesquisas feitas ao acaso. Faço pouco caso do lirismo em greve.

E me visto de chuva.

Há tempos a TV dorme ligada como se membro da família. Família que não senta à mesa, que perde o horário, que fala com olhares e que, ainda assim, comunga o Amor. E serve café nas xicrinhas pros amigos invisíveis.

E as gotas da chuva que se afina desenham mandalas com os raios de um sol fácil de se sonhar. E elas invadem todos os cantos da casa, voam pelas frestas da telha e assolam a cidade de cor, de paz, de amor e faz pouco caso de já ser noite e de no céu as nuvens encobrirem as estrelas.

Num labirinto profundo me busco e concilio todas as minhas feras.

E a chuva espanta a tristeza quando lembra os jardins que vão florir e talvez traga sorrisos ao acaso, doçura e encantos.

Penso nos rios caudalosos e na graça dos meninos ribeirinhos nús brincando na água. Tiro fotos imaginárias de meninos no rio e meninas de tranças, brincando de lavadeiras. Faço preces às mães das cachoeiras. Cato pedrinhas e lembro que já velha conheci o Velho Chico, nunca vi o Amazonas e chorei quando se foram as Sete Quedas.

A chuva mancha as imagens de Klimt, desmancha os recortes de Matisse e desdenha do sorriso de Monalisa. Me agasalho e acredito que a chuva afasta as cismas e os perigos.

Deito na calçada e me lavo na enxurrada. A voz de minha avó ainda grita:

“Menina, sai da chuva, tu vai gripar!”

E saio catando bicas, umas mais finas, outras mais fortes e me banho . Canto bem forte: “A chuva cai lá fora, você vai se molhar, já lhe pedi, não vai embora...”

Pé d’água, toró, ê chuvão... Lembro das fotos que ele não devolveu, das cartas que mandei e nunca tive resposta. De um tempo que o amor não tinha bordas e penso que virei represa dos meus sentimentos.

E as notícias somem...

“Há algo que jamais se esclareceu, onde foi que larguei naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?”

Calcanhoto canta suave agora...

E eu aluvião de tantos sentimentos e às vezes avulsão de tormentos abro todas as janelas pra chuva entrar.

Alyne Costa

Wednesday, March 05, 2008

Sem Título

Klimt, Gustav

Sem título

Quis a sorte de um amor tranqüilo,
Mas chegaste rasgando a cortina
Acreditando que seria fácil convencer-me
De que a tua metade era tudo o que merecia

Com o peito sangrando
Devolvi cada palavra
E mesmo muito te querendo
Quis mais a mim mesma...

Fitei os teus faróis castanhos,
Beijei-te a face e decidi ser feliz...


Virtas, 2007
Mais da poeta no blog Relatos e Fotos, linkado aqui ao lado.

Friday, February 29, 2008

De Amarrar

Dame avec éventail, Klimt, 1917-18


Há os que vivem sem pressa alguma, sem dúvidas, sem angústias, sem assombros e pautados no óbvio.

Para estes, ócio ou deleite, raivas, inconstâncias, temores e paixões são nuances de desequilíbrio. Esqueçam essa louca! A louca que sobrevoar a praça nua em pelo numa vassoura de cipó e assoviar: Ai deu saudade...

A tereré quer lamber a vida que é dela, como só ela sente a profundidade de suas dores.

“A dor é minha e de mais ninguém”.

Egoísta essa maluca, não? Ultra!

Eta, menina doida! Faz todo mundo rir! Por isso é bom ter a doida por perto: É riso certo!

“Mais doido é quem me diz... E não é feliz... Não é feliz...”

O sabor da vida não é único. Ela não me aparece num buffet de sorvetes. Hoje eu quero alegria, amanhã saudade, terça que vem coerência, no comecinho do mês duas bolas de audácia.

O sabor da vida está no improviso, no riso sem sentido, na lágrima que desaba sem vergonha como que falando: Ei, eu vivo! Eu sinto! Eu caminho em passos tortos, nem sempre sobre saltos, nem sempre sobre calçadas, verdade... Eu caminho e muitas vezes não há piso!

Só me resta inventar asas... E voar.

E, assim, ontem bordei um vestido com cores do absurdo. Com pedras e conchas do mar. Travei batalhas com o que não mais me habita e insiste em visitar-me inoportunamente. Acariciei a face da esperança que renasceu no eclipse lunar. Ao deitar-me chamei ao meu coração toda a força que me move. E pensei nos radares, nos monitores, nos dedos em riste e em todas as posturas convenientes...

Pensei na expressão: Loja de Conveniências.

Hoje quase tudo se vende e é comprado. À vista, parcelado no cartão, com cheque... Quase tudo.

Uma adolescente de sandálias de prata e cheiro de brisa me avisou: Não é errado falar bassoura, barrer, prumode, prefume...

E pensei que os gênios às vezes se transformam em fadas e sussurram verdades profundas.

A gente tem é que se permitir.

Originalidade, meu preto, isso aí é que ninguém compra...

Enquanto desfilo meu vestido nas alamedas que ninguém mais vê, vou aprendendo com esses meninos que crescem...

Ninguém no mundo está terminado... Nada é do jeito certo.

Ainda faltam no meu vestido uns bordados com um capim que vem do Tocantins.

E porque muitas vezes me assombro é preciso que alguns me evitem para que eu não extraia a dedo seus furúnculos.

Poesia é anestesia.


Alyne Costa

Salvador 28 de fevereiro de 2008

Saturday, February 16, 2008

Ao Poeta do Giz

Rio de Contas - Ba "Para quem precisar estar perto do céu..."


Hoje eu queria fazer um poema.
Um poema para acordar o poeta que dorme.
O timoneiro do riso.
Hoje meu verbo foi pranto.
E o meu silêncio apenas abraça o jasmineiro em flor...
Sobe o pé de goiaba.
Treme de raiva.
Treme de saudade.
Treme de dor.
Hoje o meu poema dorme à sombra de uma esperança.
E em mim habita uma cega que vaga pelas ruas a pedido de oração.
Hoje o meu poema voa junto a borboletas.
E a minha impotência cala a minha ternura.
Sou aquela que não compreende.
Sou aquela sentada à espera de um milagre.
Hoje a minha poesia é prece.
Atendei-a, ó Pai.


Alyne Costa
Salvador, 16 de fevereiro de 2008

Thursday, January 24, 2008

Voa, Meu Coração

Voa, meu coração...

Voa infinito pelo céu bonito.

Abraça as estrelas.

Afaga a lua.

Voa, meu coração...

Voa além dos limites de tudo que sonhamos...

Voa contente com suas velhinhas sorridentes.

De lá de cima, vês melhor o verde das mangas...

Escuta agora os aboios celestes.

Que tenhas nesta paz a alegria que nos destes.

Voa, meu coração...

Voa sereno e escuta os sinos dos anjos.

Te deram em vida tantas virtudes.

O dom do amor.

O dom do perdão.

O dom da humildade.

O dom de amar aos pequeninos.

E assim, seu amor floresceu...

Em fibra, em honestidade, em filhos, em netos, em sonhos, em vida, em flor...

Seu amor derramou-se feito chuva em todos nós.

A mão forte que tantas vezes segurou a enxada, era a mesma mão que fazia um carinho...

Que estendia aos amigos, que acenava esperança, que adulava criança...

Os pés, tantas vezes manchado da terra, caminhava, caminhava, caminhava...

Agora, viraram asas...

Amor de lavrador...

Os pés superavam o trator...

Seu Flores, seu amor foi jardineiro, deu flores em todo tempo pra enfeitar seus janeiros.

Voa, meu coração...

E pousa tranqüilo por entre as rosas e cravos que te sucederam.

Vira beija-flor e rodopia anunciando tua chegada com alegria.

Voa, meu coração...

Segura na mão dos anjos e olha por nós.

Olha pela natureza que tanto conhecia.

Olha pelos pássaros que te acompanhavam na caminhada.

Olha pelas árvores.

Olha pelos bichos e pelas gentes.

Voa, meu coração...

E assobia, daquele jeito que parecia ser a manhã cantarolando.

Voa em paz...

Voa, meu coração.



Para Vô Nenzinho

Alyne Costa

Salvador, 22 de janeiro de 2008

Friday, January 18, 2008

Ao Poeta das Fadinhas

Plugada, Alyne Costa
2003, acrílica sobre tela


E hoje duendes e fadinhas não me acompanharão
Hoje o poeta enlouqueceu e seus versos soltos nada me trazem das velhas canções
São entorpecentes seus desejos
E nada me diz sua voz arrancada a quatro céus
A quatro foices sem martelo
E à fina flor da minha angústia me emudeço
Emudecida, cedo assim, assistindo mansamente as vinte estrelas desta tristeza.

Para Rose setembro de 1991

Tuesday, January 15, 2008

Gente que faz voar....


O Pássaro, R.Godá

Nanquim
Muitas obras deste maravilhoso artista encontram-se no site:
http://www.murilocastro.com.br/expo/expo.php?expo=25
Gente que nos faz voar com os olhos e com o coração.


Lenda do Pégaso

Moraes Moreira

Composição: Jorge Mautner


Era uma vez, vejam vocês, um passarinho feio
Que não sabia o que era, nem de onde veio
Então vivia, vivia a sonhar em ser o que não era
Voando, voando com as asas, asas da quimera

Sonhava ser uma gaivota porque ela é linda e todo mundo nota
E naquela de pretensão queria ser um gavião
E quando estava feliz, feliz, ser a misteriosa perdiz
E vejam, então, que vergonha quando quis ser a sagrada cegonha

E com a vontade esparsa sonhava ser uma linda garça
E num instante de desengano queria apenas ser um tucano
E foi aquele, aquele ti-ti-ti quando quis ser um colibri
Por isso lhe pisaram o calo e aí então cantou de galo

Sonhava com a casa de barro, a do joão-de-barro, e ficava triste
Tão triste assim como tu, querendo ser o sinistro urubu
E quando queria causar estorvo então imitava o sombrio corvo
E até hoje ainda se discute se é mesmo verdade que virou abutre

E quando já estava querendo aquela paz dos sabiás
Cansado de viver na sombra, voar, revoar feito a linda pomba
E ao sentir a falta de um grande carinho então cantava feito um canarinho
E assim o passarinho feio quis ser até pombo-correio

Aí então Deus chegou e disse: Pegue as mágoas
Pegue as mágoas e apague-as, tenha o orgulho das águias
Deus disse ainda: é tudo azul, e o passarinho feio
Virou o cavalo voador, esse tal de Pégaso

Pégaso ..................
Pega o Azul



Piada

piupiupiu , piriu,piuuuuuuuuuu,

piu, piu, pi

u

pi

u...

.

.

.


Alyne Costa
Salvador, verão de 2008

Saturday, January 05, 2008

A Vida Não Tá no Gibi

Imagem retirada do site: www.memorychips.com.br/Lembra27.htm
vale a pena conferir...



Que confusa é a vida...
Se tudo fosse lápis e borracha, um simples rascunho...
Mas nada é assim!




A vida não cabe no abraço protetor de meu filho.
A vida não cabe num livro inédito.
A vida não é um poema de Arnaldo Antunes.
A vida não é o que é o que é, meu irmão.
A vida é um pedaço de pão.
A vida não paga o preço das minhas dúvidas nem a minha fome de liberdade.
A vida não se pode virar e desvirar pelo avesso.
A vida viaja em paz de ônibus.
A vida pode ser sonhada, recriada e inventada.
A vida rasga num poema de Torga.
A vida bóia na poesia de Bandeira.
A vida não quer ser levada a sério.
A vida não aparece nas manchetes de jornais.
A vida é clandestina, e sorri, menina.
A vida tá na asa do colibri e no canto do bem-te-vi.
A vida cospe na cara.
A vida é obscena.
A vida é cruel.
A vida é fel e mel.
A vida é ciranda e carrocel.
A vida é sushi e sarapatel.
A vida é prazer e carga.
A vida é ré confessa.
A vida não tem CPF, nem RG.
A vida não tem endereço certo.
A vida não tem nada em seu nome.
A vida não declara imposto de renda.
A vida não tá nem aí pra CPMF!
A vida é redonda e quadrada.
A vida é uma canção de amigo.
A vida é um poço e um abrigo.
A vida se veste na noite de estrelas douradas.
A vida se despe de dia, qual prostituta encantada.
A morte, esta não tem jeito.
A mentira, tem lá seus acertos.
Mas a vida...
A vida não tá no gibi!


Alyne Costa
Salvador, janeiro de 2008