Wednesday, December 12, 2007

Máquina de Costurar Saudade

Minha avó era costureira. Nas mais doces lembranças de minha infância reside a máquina de costura de minha avó. Eu ficava ali beirando horas a fio o seu manuseio com linhas, tesoura e passava horas observando seus pés sob o pedal da máquina, aquele vai e vem. Às vezes sentava no pedal e fazia, escondidinho, dele um balanço. Outras, também escondidinho, sentava na máquina e brincava de costureira. Quando surgia o flagrante, ou Bia me via e me dedurava, era um grito só:

-"Sai daí, menina, tu destraveia minha máquina!"

E eu saía, olhando o alpendre perto da laranjeira... A mesa grande cheia de roupas pra passar no ferro, à brasa para economizar luz,e a máquina no canto, reinando absoluta, talvez aquilo que fazia Dona Alda deslizar em sonhos.

O ser costureira deve ter nascido da necessidade de criar a filharada. Eram muitos e o dinheiro pouco. E ela precisava de algum trocado... Não sei bem porque desde que tive contato com aquela mulher, mãe, dona de casa, vó, as coisas já não eram tão ruins. Havia a despensa cheia de frutas e doces, de leite, manga e umbú.

Quando acabava os afazeres no fogão de lenha e acabava a louça lavada numa bacia de alumínio porque sua cozinha não tinha pia, e ela tinha que se virar, buscando e trazendo água de lá para cá, ela se sentava na máquina de costura e, talvez, por ali, tecia os sonhos do que não podia ser. Os sonhos das filhas... Quase sempre os sonhos seus.

De tardinha um café de bule e cuador de pano, só para agradar Chico Moreira que ali ia cortar a lenha do seu fogão.

As freguesas eram quase sempre fiéis. As filhas. As netas. Anália que morava com Dona Olga e a mulher de Zé Rodrigues da venda. Iam lá sempre.

Vestidinhos, camisolas, roupas da moda, emendas, reformas, tudo que uma máquina de costura podia fazer. Em seus olhos pendia a tristeza de sua máquina não ter zig-zag, mas quando ia a Salvador deleitava-se horas na máquina moderna da filha que de tantos apetrechos permitia até um “ elastec”.
Eu, já mocinha, reclamava quando ela colocava botões infantis com carinhas de coelhinhos e gatinhos em minhas melindrosas, quase sempre feitas de retalhos, emendas de roupas que um ou outro não queria mais. Ai, eu odiava botões de coelhinhos, mas vibrava quando ela me mandava na Rua da Igreja, em Dona Loyde, comprar ilhós ou botão. Era fabuloso. Chegava na janela e gritava:

-Dona Loydeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!!!!

Ela aparecia.

-Vó Alda me mandou comprar tantos botões e um carretel dessa cor...

E meus olhos se entorpeciam ao ver a terna comerciante abrir aquelas gavetinhas recheadas de sonhos, botões de mil cores, linhas das mais diversas, e com aquele cabelo branco preso em coque, Dona Loyde puxava conversa, chamava Evergistro, seu marido, e a compra de botões, feche-ecler, ilhoses e linhas era sempre uma festa.

Nas minhas aventuras de fazer roupa de boneca furtar os retalhos de minha avó era uma arte. Quase sempre muito bem escondidos, para uma emenda num colchão, para isso ou para aquilo, haviam muitos, estampados com flores, listras, outros restos das antigas mortalhas de blocos de carnaval, do “Jacú”, “Sniff” , “Traz os Montes” e “Camaleão” (blocos de carnaval que meus tios desfilavam em Salvador), viviam num saco, uma mina de retalhos.

Isso me garantia convite certo pros aniversários de bonecas. Óbvio que o presente mais bem vindo era um retalho de bom tamanho que garantisse no mínimo um bom vestido para as zambetinhas (bonecas de plástico compradas na feira que mantinham eternamente a posição de bebê).

“-A avó dela é costureira, tem retalho...”

As meninas sussurravam e assim eu ia a todos os aniversários de bonecas. Levava o retalho (furtado é claro) embrulhado numa sobra qualquer de papel de presente amassado de alguma lembrança de parente vindo de Salvador e ai de mim se ela desse falta.

Nem sei por onde anda a máquina de costura de minha avó. Sua vista nublada talvez não mais lhe permita tentar costurar os sonhos que se quebraram ao longo do caminho... A máquina com “zig-zag” talvez nunca tenha aparecido, mas permanece em minha memória seu potencial em reciclar, em fazer roupa velha vira nova, desalento virar sonho e tristeza virar alegria. Sua felicidade em ver as filhas e as netas usando as roupas e vestidinhos mimosos que ela havia costurado com desvelo. Felicidade de artista em plena bienal.

Que pena que o tempo não costura as delícias que vivemos.

Para Vó Alda

Alyne Costa
Brumado, 12 de dezembro de 2007

4 comments:

Alba said...

querida, seus textoss empre me encantam...minha avó era também costureira, mas o que me encantava era seu fogão de onde saíam delícias e que me trouxeram o sabor de comer e cozinhar...rsrsrs nossas avós, avó é uma coisa boa, doce, né? nossas avós...mil beijos, e ai, me manda sempre seus textos me delicio..rsrsrs

Clédson Miranda said...

Olá, Alyne,

Num desses acasos que a Internet nos proporciona, descobri o sei blog... e em meio à tanta banalidade que vejo em muitos blogs pelos quais passo, descobri uma maravilhosa exceção a essa infeliz regra: o Cafundó. Que blog lindo!

Sou filho de costureira e sei bem o valor destas coisas... minha mãe, hoje quase octogenária, ainda costura e a máquina é ainda a velha Singer, que, outrora, era movida a pedal e, hoje, a motor. Mas a minha infância ainda continua viva: toda vez que ouço o barulho da agulha a perfurar o tecido e coser a trama de nossa sobrevivência.

Eu conheci a cidade de Brumado quando trabalhei na UNEB e vi algo interessante escrito/pichado no muro do cemitério: "As flores também têm a sua sorte... umas enfeitam a vida, outras enfeitam a morte." Logo aí, percebi que, em Brumado, a arte é presente... até em momentos/lugares tristes.

A fotografia em preto-e-branco do engraxate em outra postagem do seu blog é bela. Quem fez a foto?

Obrigado pelas lembranças e parabéns pela beleza que emana de suas palavras.

Também tenho um blog de caráter mais intimista chamado Transcendência. Se tiver interesse e oportunidade, dá uma passadinha por lá e deixa algum comentário, tá!

Abraços,
Clédson

Clédson Miranda said...

Retificando:

Meu comentário postado estava apenas apoiado na minha parca memória de alguns meses atrás e de só ter visto uma vez o muro do cemitério, mas ao verificar outras postagens do seu blog vi que você também a contemplou, inclusive com uma foto. "Até as flores dependem de sorte, umas enfeitam a vida outras enfeitam a morte."

Cafundó said...

Oi, Clédson, sim as duas fotos são de minha autoria, mas pertencem aos olhos de quem sabe ver. Beijos!