Friday, March 07, 2008

A Chuva Escorre Em Mim

By Alyne Costa


A chuva escorre em mim. Cai forte feito tempestade sobre meus alicerces. As coisas que acredito passam a boiar.

Segredos, medos, amores, projetos e sonhos bóiam obstinados, resistentes...

A tempestade afasta a solidão e o barulho da chuva canta antigas modinhas de um tempo que sequer me pertence, removendo as falsas angústias.

Ensaio respostas para as dúvidas do dia. Travo monólogos sobre teses que não dissertei para uma platéia invisível que zomba e vaia. Cai às gargalhadas. Não, quase cai, apenas se inclina sensualmente pela força gregária de ter grupo.

Abraço a solidão e a verdade. A força de permanecer inteira enquanto cato os cacos de quantas já fui.

Voam pela mente projetos sociais, abraços de tia, manchetes, pesquisas feitas ao acaso. Faço pouco caso do lirismo em greve.

E me visto de chuva.

Há tempos a TV dorme ligada como se membro da família. Família que não senta à mesa, que perde o horário, que fala com olhares e que, ainda assim, comunga o Amor. E serve café nas xicrinhas pros amigos invisíveis.

E as gotas da chuva que se afina desenham mandalas com os raios de um sol fácil de se sonhar. E elas invadem todos os cantos da casa, voam pelas frestas da telha e assolam a cidade de cor, de paz, de amor e faz pouco caso de já ser noite e de no céu as nuvens encobrirem as estrelas.

Num labirinto profundo me busco e concilio todas as minhas feras.

E a chuva espanta a tristeza quando lembra os jardins que vão florir e talvez traga sorrisos ao acaso, doçura e encantos.

Penso nos rios caudalosos e na graça dos meninos ribeirinhos nús brincando na água. Tiro fotos imaginárias de meninos no rio e meninas de tranças, brincando de lavadeiras. Faço preces às mães das cachoeiras. Cato pedrinhas e lembro que já velha conheci o Velho Chico, nunca vi o Amazonas e chorei quando se foram as Sete Quedas.

A chuva mancha as imagens de Klimt, desmancha os recortes de Matisse e desdenha do sorriso de Monalisa. Me agasalho e acredito que a chuva afasta as cismas e os perigos.

Deito na calçada e me lavo na enxurrada. A voz de minha avó ainda grita:

“Menina, sai da chuva, tu vai gripar!”

E saio catando bicas, umas mais finas, outras mais fortes e me banho . Canto bem forte: “A chuva cai lá fora, você vai se molhar, já lhe pedi, não vai embora...”

Pé d’água, toró, ê chuvão... Lembro das fotos que ele não devolveu, das cartas que mandei e nunca tive resposta. De um tempo que o amor não tinha bordas e penso que virei represa dos meus sentimentos.

E as notícias somem...

“Há algo que jamais se esclareceu, onde foi que larguei naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?”

Calcanhoto canta suave agora...

E eu aluvião de tantos sentimentos e às vezes avulsão de tormentos abro todas as janelas pra chuva entrar.

Alyne Costa

4 comments:

Jacinta said...

Andando na chuva, passei lá no Jorge Elias, espantei a tristeza e cheguei até aqui, percebendo que meu florescer ficará mais lindo, pois escuto no seu texto sorrisos ao acaso, doçura e encantos.
Gostei do seu lugar.
Parabéns.
Jacinta

Jorge Elias said...

Essa Jacinta...Seguidora dos passos de Anchieta.

Estou de volta para ler seu poema raizes, vou tentar procurar nos seus arquivos.

E olha... Não saia da chva não!
Eu me vi no seu texto.

Abraços,

Jorge Elias

Clédson Miranda said...

Olá, minha doce e nobre Alyne!

Hoje caiu a maior chuva aqui em Vitória da Conquista e, por um acaso desses que o destino nos reserva naveguei pela enxurrada do seu blog... cada vez mais fico embevecido com o poder e a beleza da sua linguagem!

Depois da temporada de Sampa, estou de volta à terrinha. Agora estou morando numa casinha branca de varanda e uma janela de onde diviso o meu jardim. Além das rosas, amores-perfeitos, sempre-vivas, margaridas e uma pitangueira, tenho um jasmin-manga(que só nasce no sudeste/sul do Brasil, amarelo-alaranjado)que plantei recentemente e hoje as flores dele cantaram a felicidade da chuva torrencial que caiu sobre a cidade no começo da tarde...

Parabéns pela bela postagem, e obrigado por haver colocado o link do meu blog na sua lista de favoritos!

Abração,
Clédson

Fabrício Brandão said...

Olá, querida Alyne!

Depois de um tempo sem vir aqui, deparo-me com os signos de tuas águas. É curioso como tais sensações provocam em nós reminiscências, devaneios, ímpetos de atravessar lembranças marcadas na memória a ferro e fogo.

Eu mesmo escrevi uma crônica que chama "Sobre águas que não lavam" e que fala em torno desses sentidos que você também e tão bem explora aqui.

Belas palavras, querida!

Beijos