Aulas Regadas a Dodô e Osmar

Lembro com saudades dos meus livros de infância. Aqueles de colégio que traziam fragmentos de histórias da Ruth Rocha, da Henriqueta Lisboa e poemas de Cecília Meireles. Não lembro que autor mas nunca esqueço a história de Raquel e sua bolsa, a de uma gatinha que se chamava Face Branca Murmurante e de um livro do Pedro Bloch que contava a história de um menino daltônico intitulado: “Pai, me compra um amigo?”
Era ávida por literatura. Nas férias escolares devorava os livrinhos de literatura infantil que a escola pedia e que não dava tempo durante o ano letivo de trabalhar na sala de aula. Frequentava bibliotecas e lia de Monteiro Lobato a lendas sobre o folclore brasileiro.
Certa ocasião chegou um grande navio em Salvador e meu pai me presenteou com um livro chamado “Rosinha Chinesa” que nada mais era que uma versão oriental da cinderela... Eu queria morar naquele navio.
No início da adolescência: Pollyana, Christiane F, Coleção Vaga-Lume com os enigmas de Marcos Rey, daí cismei que ia ser detetive.
Um pouco mais tarde Hermann Hesse: Demian, O Lobo da Estepe, Sidarta.
Fui me aprofundo até chegar em Marcuse, Nieztche e Foucault já com 19 anos.
Eu lia e gostava de quem lia. Assim ensinei Maria a ler. Maria havia chegado lá em casa de uma roça chamada Alecrim e ainda não era alfabetizada. Com o dinheiro da merenda comprei caderno, lápis, borracha, lápis de cor e até um caderno de caligrafia, além de uma cartilha e comecei o ofício de magistério.
Maria não podia mais ver a novela da tarde. Eu era rabugenta e exigentíssima e de vez em quando Maria não queria aula. Frustrada, eu amenizava, dava recreio antes da hora, colocava um LP do trio elétrico Dodô e Osmar e a aula acabava em carnaval.
Os dias se passavam e aos poucos eu vi minha vitória, Maria já assinava: Maria Lindóia da Conceição.
No ano seguinte estava matriculada numa escola noturna. Confesso que fiquei um pouco triste ao ver Maria ir para uma escola de verdade e sair da escola de meus sonhos.
Viva Dodô e Osmar!
Alyne Costa
25/03/11
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um abraço.
romério