A Mulher Que Guardo em Mim
Arte by Henrri Matisse- Tristeza do Rei
Guardo em mim a fúria das tempestades
E na minha gaveta papéis coloridos me trazem de volta a
infância
Cachorros correndo pelo varandal...
Uma alegria ímpar invadia o ser que nascia.
A esperança me vigiava as noites.
E uma cigana me cantava canções de ninar.
A Vó na cozinha preparava uma couve.
As minhas bochechas borradas de feijão davam o sabor da
vida.
Saia pra passear nos ombros de meu pai com sua cabeleira
exposta.
Pai, teu nome é saudade.
E das lembranças boas restam as canções no violão.
Versos ecléticos invadiam de luz o apartamento 1002.
E saíamos a caminhar pelas ruas conversando com os gringos
em alemão.
Guardo em mim também a calmaria das hortaliças em ordem.
Guardo em mim a mãe meio tonta que ama o filho e só sabe
amar.
Guardo em mim uma mulher que ainda não conheço.
Que tem gostos esquisitos e uma força estranha na hora da
dor.
Guardo em mim uma amante trêmula, que ser carne e ser verbo
é também ser mulher.
Tão longe da infância, mas que ainda aguarda as primeiras
lições na lousa do giz.
Alyne Costa,
19/10/13
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