Tuesday, September 15, 2009

Antes dengosa...


Tava me sentindo mal... Mal mesmo: corpo doído, molinha, molinha, tosse e muita tosse, tudo havia começado com uma dor de cabeça.

A tese dos médicos infectologistas vinha à tona: “Só procure as emergências de hospital em último caso, gripe se cura em casa e com boa alimentação e repouso.” Mas a tese se confundia com meus sintomas, eu já me via num quarto de isolamento... Mas faltavam os vômitos, gripe suína apresenta vômitos e não vomitava, mas também não comia, não tinha o que colocar para fora.

Só que os senhores médicos infectologistas das entrevistas aos telejornais se esqueceram de um pequeno detalhe legal: se alguém estuda ou trabalha precisa de atestado médico não dá para apenas comunicar a quem de direito que você está com sintomas de virose (sabe-se lá qual) e que é melhor ficar em casa repousando, tomando sopinha que abarrotar os hospitais.

O fato é que a coisa foi ficando feia e eu não melhorava: emergência, não tinha outro jeito. Ninguém queria ir comigo, culpa de quem? Dessa histeria coletiva que virou a gripe suína e que faz todo mundo esquecer ou sequer pensar no “x” da questão: saúde coletiva, como é que a senhora vai?

Tudo bem, “se Anália não quiser ir, eu vou só...”... Mas Anália foi e eu não fui só. Depois de escolhida a clínica e esperar algumas horas, fazer questão de sentar ao lado de um adolescente que também tinha sintomas de gripe, afinal solidariedade, isso, unir nossos vírus, fui atendida.

O médico foi legalzinho:

-Sintomas de gripe...

-Vai me internar Doutor?

-Não, mas como estamos vivenciando este quadro de gripes mais severas, você vai ficar de observação, vamos fazer o teste, embora os sintomas sejam comuns. Entregue estas requisições à enfermeira nesta sala ao lado...

Bem a sala ao lado não era bem ao lado e àquela altura eu já havia perdido a minha péssima noção de geometria espacial. Sei que ao lado não era. Tinha uma moça de branco que horas antes eu havia visto na portaria da clínica escolhendo um jaleco na mão de uma vendedora ambulante de jalecos( eu nunca imaginei isto, eram jalecos lindos, bordados de florzinha, borboletinhas...)e eu julguei ser uma enfermeira...

-Ei, enfermeira, psiu...

Enfermeira nem thunsk, mas apareceu um rapaz também todo de branco:

-Oi moço, o Senhor é enfermeiro? O médico mandou eu te dar estas requisições de exames...

-Eu não sou enfermeiro não, a enfermeira é ela (nem thunsk, no caso)...

E saiu com minhas requisições na mão como se enfermeiro fosse!

Alguém que não lembro quem me encaminhou ao frigobar, uma caminha embaixo de um gigantesco ar condicionado que me levou a crer que se não fosse gripe suína, morreria eu de hipotermia (menos mal, não dói, dizem que é uma morte suave...). A esta altura Anália sentava-se ao meu lado e meus olhos lhe diziam o grau de meu desespero.

Ninguém passava a não ser uma faxineira de cabelos vermelhos a quem tive coragem de perguntar:

-Não tem uma cobertinha aí não?

A resposta foi pressa, muita pressa, todos apressados e um barulho de conversas alto, Jaleco Bordado ou Nem Thusk falava com suas colegas e uma novata, coisas leves, tudo muito suave:

-Ai que sapatinho lindo, comprou aonde?

E eu lá até que as lágrimas começaram a descer a princípio tímidas e paulatinamente foram se tornando copiosas, vertentes... Um rio. Choro de quem está doente e não sabe o que tem, choro de solidariedade com a velhinha do lado que estava com infecção intestinal após comer um bobó de camarão, choro por Filipe de 15 anos com virose, um adolescente enorme que eu daria uns vinte anos e bem mais sortudo que eu porque lhe arranjaram uma cobertinha, deve ser coisa de plano de saúde: Plano especial: direito à cobertinha, Plano individual: direito a lençol e Plano Enfermaria: frigobar.

O Quase-Enfermeiro que havia levado minhas requisições passou por mim e ao ver as lágrimas jorrando perguntou à Anália:
-Tá emocionada é?

Anália não disse nada e logo depois apareceu um cara bem legal que me levou ao raio-x, me sentou numa cadeira de rodas porque segundo ele eu estava muito emocionada e aí foi massa, subimos o elevador, tirei o raio-x logo depois de cumprir a exigência de tirar minha medalhinha de São Jorge e voltei com o rapaz legal a quem até perguntei se era ele que ia tirar meu sangue, mas não era...

De volta ao frigobar, Doutor passou por lá e eu lhe passei um rabo de olho furioso depois fingi que não era com ele e ele ao perceber perguntou a Anália:

-Tá afetada, é?

Anália apenas respondeu:

-Ela tá nervosa.

Afetada! Filho da mãe! Só porque eu disse que tomava remédio controlado... Pronto, isso me deu a certeza que minha fama de louca havia cruzado todas as fronteiras e talvez até tenha sido flagrada num de meus pitis tradicionais e colocada, sem saber, no yotube.

A espera continuava, agora pela coleta do sangue... Enquanto cabelo vermelho passou de novo com sua vassoura poderosa.

A velhinha do bobó recebeu liberação enquanto suas amigas lhe aquietavam o espírito dizendo que aquilo era preocupação...

A mãe de Felipe reclamou do lanche que não vinha porque Felipe estava sem almoçar, viera direto do colégio pra clínica. De fato, Felipe estava de farda... Pouco tempo depois veio o lanche de Felipe. Planos de saúde me aguardem: Agora só faço Plano categoria Felipe!

Eu tava com uma fome incontrolável quando a moça da coleta de sangue chegou, muito simpática, olhou meus braços e disse que parecia dengue aquelas manchas na pele.
Manchas na pele? Eu não tinha percebido nenhuma mancha na pele e falei-lhe docemente que deveria ser a marca do meu casaco. Ela respondeu tão docemente que com muita inveja de Felipe arrisquei:

-Aqui não sai uma coisinha pra comer não?

-Vamos ver...

Estou vendo até hoje...

Anália já impaciente também resolveu perguntar a jaleco bordado quanto tempo dava o resultado do exame e chegou com a resposta: uma hora e meia...

Ai começou a vontade de fumar, quebrei o protocolo e procurei uma saída, tinha cigarro na bolsa, só não tinha fósforo. Saí à procura de fósforo como se nada estivesse acontecendo e ninguém com fósforo...

Pedi a Anália encarecidamente para arrumar um fósforo e esta recusou-se foi quando cabelo vermelho passou para lavar as mãos e eu vi nos olhos de cabelo vermelho que ela era fumante (batata!):

-Moça, vem cá, a senhora fuma?

-Fumo, mas não aqui!

-Não tem como a senhora me arrumar um fósforo não?

-Tenho não, mas tinha um senhor fumando lá fora agorinha...

Desci voando e ninguém com cara de fumante. Cheguei tarde.Subi de novo e após a tentativa mafiosa de descolar um fósforo com cabelo vermelho, optei por usar as vias legais e dirigi-me a jaleco bordado:

-Moça eu posso dar uma saidinha para fumar?

Jaleco, respondeu numa ternura que me fez entender todas as florzinhas bordadas que usava:

-Você ainda não sabe o que você tem... Tome uma água gelada e descanse...

E me trouxe uma água gelada que funcionou!

Logo em seguida Doutor voltou, me chamou e me disse que eu estava bem, mas que tinha dengue o que me fez gelar de temor à dengue hemorrágica:

-Eu já tive dengue...

E ele respondeu sorridente:

-Você é muito dengosa. Aguarda só mais um pouco que você vai ser liberada.

Bem, antes dengosa que afetada, voltei ao frigobar até que chegou a enfermeira da noite e Ari baba pra lá, Ari baba pra cá, tic, muito fuzuê... E falando com as outras em caminhodasindianês perguntou que médico estaria no plantão.

Não era médico, era médica a que me liberou e que me deu um atestado de um dia sob a alegação de que “dengue não era doença” e que “caso os sintomas piorem retorne à emergência...”.
Tá tudo bem, dengue não é doença, o Brasil fica na Oceania, pobre Felipe nem seu Plano nos salva mais... Certo é que antes dengosa que afetada!
Alyne Costa
Setembro de 2009

2 comments:

dade amorim said...

Alyne, o bom é que brasileiro é tão bonzinho que acha até engraçado ser tratado desse jeito.
Adorei seu blog, viu?
Obrigada pela presença.
Um beijo e muita saúde.

Cafundó said...

Não dá pra chorar, né?
Gostei muito de seus poemas.
Beijos.