Saturday, December 04, 2010

O Preço da Prudência



Hoje a minha inspiração foi visitada pela prudência... Inúmeras vezes na vida pagamos o preço da nossa imprudência que parei para avaliar o que não pagaremos por sermos excessivamente prudentes?
Desde criança somos brindados com prudentes conselhos dos adultos responsáveis por nossa saúde e bem estar: não ande descalço, não fique no sereno, cuidado com a chuva, saia do sol, e outros, escandalosamente, desarrazoáveis como não tome leite que você acabou de chupar manga, não corra porque você está menstruada...
O universo feminino sem dúvidas é bem mais tolhido por este excesso de zelo que o masculino, mas a prudência cerceia homens e mulheres sem distinção.
Não quero aqui um manifesto à irresponsabilidade. Não. Canja de galinha é saudável sim!
Falo é de quando prudentes demais, econômicos demais, responsáveis demais, deixamos de voar, sonhar, arriscar e assim avançar.
A prudência é uma virtude, mas nenhuma virtude é para fincar-nos ao chão feito árvores. Conheço uma senhora tão prudente com a internet que está perdendo a oportunidade de conhecer a mais dinâmica forma de comunicação do mundo moderno e se privando de ter acesso às maiores galerias de arte do mundo.
Julgando estar sendo “prudente” e evitando ter problemas com sua privacidade, uso irregular de seus dados pessoais, está sendo na verdade preconceituosa com o que desconhece e covarde em enfrentar o mundo novo que se descortina.
Ainda ontem lendo uma manchete de um importante jornal vi que a criminalidade estava levando o medo a nível epidêmico, pois mais de 70% da população sofria de medo o que prejudicava a convivência.
Prudentes, atrás de grades, câmeras, seguranças, pouco a pouco o homem se esconde do homem, tem medo do homem, vai se esvaziando, se esvaindo, se perdendo na sua solidão, trancafiando-se na sua angústia.
É o preço que se paga. Me lembra um livro que li na oitava série intitulado “Bóia, Boi, Bang!”, cuja autoria me escapa a memória e que narrava num trecho: “Metade da humanidade não come e a outra metade não dorme com medo da que não come!”
A nossa prudência já não acalanta o nosso medo. E o excesso de prudência apenas nos mutila os potenciais.
Como um dia cantou o já saudoso poeta Damario Dacruz:

“Tristeza que não vamos por medo dos caminhos...”

Alyne Costa
4/12/2010

2 comments:

Thales said...

Por que isso que ao olhar por minha não pequena janela vejo apenas gigantes mausoléos de cimento e alvenarias. Pequenas mortes, sorrisos diários sem testemunhas. Estranho querer tocar e ao mesmo tempo temer a decepção ou a rejeição.
Me canso dos discursos humanitários que vendem uma imagem desconexa, o que gostaria mesmo de ver eram os números voltando a serem humanos de novo.

Cafundó said...

Legal, Thales...