Ousando
A gente se cansa. De vez em quando a gente não consegue nem
mais erguer a cabeça.
Se cansa de ser honesto e ser autêntico.
A gente se cansa de ver os mesmos rostos nos noticiários
justificando o que não se justifica.
O mesmo modus operandi a cada quatro anos.
Alianças, conchavos, alianças, conchavos, traições,
mentiras, a gente se cansa.
O coração fica miudinho e não há dinheiro que restaure vidas
massacradas.
Às vezes a vida massacra, sem dó nem piedade.
A gente ri porque não tem jeito mesmo.
E, de vez em quando, no meio do riso, a gente chora.
A gente se agarra à fé, mas são tantas versões de
religiões...
A gente se encanta e se desencanta.
A gente chuta o balde.
A gente deixa de acreditar em dias melhores.
E passa a conviver com o cinismo.
Às vezes uma crueldade é tão grande que por mais que você
tente sobreviver percebe que morreu um pouco.
E, de tanto viver nesse reino de injustiça, a gente quer
enlouquecer.
A gente quer andar na contramão do destino, pegar água no
cesto...
A gente não devia nem se incomodar nesse mundo em que se
compra tudo, menos a verdade.
Mas a gente se incomoda e perde a paciência.
E a gente observa que não podemos nos permitir mais erros.
Não, não temos muito tempo.
São poucas as chances.
E a gente então ouve uma canção, toma um café e segue o
baile.
E ousa, com toda audácia do mundo, ser diferente.
Alyne Costa, 13-02-2024
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