“Existem pessoas que são como a cana, mesmo reduzidas a
bagaço só fornecem doçura.” Dom Helder
Certa ocasião eu viajava de volta para Salvador e ao meu
lado no ônibus vinha um jovem de aproximadamente 23 anos, ele lia um livro de
Augusto Cury e enquanto travávamos uma conversa leve e despretensiosa ele me
mostrou uma gravura e me perguntou o que eu via, respondi que via uma velha, e
ele insistiu...
- Olhe de novo!
Respondi, como num lampejo:
-Vejo uma moça mordendo uma maçã!
Ele guardou a gravura me olhou com um sorriso jovial, quase
angélico e me disse que poucas pessoas conseguiam ver as duas imagens.
Era um jovem adventista e ia para Recife, ainda muito jovem
viajava dando palestras, sua presença era cheia de paz e ternura e no final da
viagem ele pediu que eu entregasse um dvd a um amigo que iria me procurar.
Hoje depois que escrevi um poema sobre um barba azul, um
amigo das antigas me perguntou quanto de mim havia naquele poema, eu fiquei sem
condições de explicar como conheci a história do barba azul no livro Mulheres
que Correm com Lobos num grupo terapêutico que participei na pandemia e o que o
aprofundamento daquela história me mostrou tudo que estava diante de meus olhos
e eu não sei porque cargas d´água não via.
Reparem que há coisas que todo mundo vê e há coisas que
ninguém vê e ainda há coisas como as da gravura que o companheiro de viagem me
mostrou que poucas pessoas conseguem vê.
De fato, por muito tempo, eu abri mão de mim, me afastei do
que eu era e vivi à deriva, mas eu sabia que me reencontraria um dia e que
talvez alguns afetos não sobreviveriam.
Eu, que quase nunca tenho febre e raramente gripo, estou
tirando uns dias para cuidar de uma otite, quanto à maluquice, essa não tem
cura. Aproveitem e boa viagem.
Alyne Costa, 05/05/2024
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