Thursday, October 11, 2007

As Pessoas Mentem


Pigg retirado do Blog: http://bibiloni.cat/blog/?p=225


Hoje escrevi um texto bonito sobre esperança, sonho de ver semáforos apena em museus e o mundo colorido por inúmeras bicicletas em lugar de automóveis, quando os homens acordaram e perceberam que além de não poluir, elas conduzem e são muito, muito mais divertidas...


Mas o texto que atormenta minha alma é outro, fala sobre mentiras e confiança.


Semana passada, comendo uma pizza com um casal de amigos, um deles me disse:

"O amor tá acabando..."


Aquela frase soou em meus ouvidos como verdade e daquelas que machucam...


Lembrei de minha prima Sylvia. Fomos criadas tão distantes, mas somos tão parecidas, na genética, no signo, na ironia, até no tortinho do dedinho da mão. Mas em nossos encontros tão raros, ela com sua genialidade e sensibilidade me ensinou tanto. Por incrível que pareça, me apresentou Nelson Rodrigues....


Em uma noite ao visitarmos uma exposição eu tremia. E ela, com todo seu conhecimento científico foi branda:

"Você treme porque não comeu e aqui está frio..."


Saimos da sala fria e fomos para outra, bem quente, porque o artista estava expondo um trabalho feito com dendê e luz. Claro que o artista merece ser citado, um gênio, Ayrson Heráclito.


Dendê, calor, seja o que for, eu parei de tremer...


Eu estava numa fase magérrima. Devia pesar menos de 40 kg e um cidadão com uma câmara resolveu me fotografar.


Complexadíssima com minha magreza fui altamente mal educada e perguntei ao fotógrafo:

"Você me conhece?"


Ao que ele, vestindo um olhar de tristeza, apenas me respondeu:


"Pero que si, pero que no."


E eu fiquei com essa engasgada pro resto da minha vida.


Pero que si, pero que no...


E mais tarde, conversando com minha prima sobre determinado marchand, afirmei veemente:


-Um amigo me disse que esse cara é um canalha, um tremendo oportunista e que é envlvido em coisas muito suspeitas.


Minha prima, com sua serenidade genial, sua excêntricidade prima-irmã da minha e sua doçura face à minha ingenuidade, apenas me disse:


-Alyne, as pessoas mentem.


Aquela frase não tocou minha mente, tocou meu coração porque eu sempre fui uma crente fiel no que as pessoas me diziam...


Acreditava em tudo e em todos.


Com essa frase eu passei a desconfiar dos raivosos e dos invejosos, mentem por obstinação.


Mais tarde eu passei a duvidar de manchetes, revistas e noticiários: mentem pra formar opinião.


Mas é tão doloroso quando você se observa desconfiando daqueles que ama, daqueles com quem divide a vida...


É tão mais macio, mais leve, acreditar na mentira e, ao mesmo tempo, não enfrentar a verdade é covardia, é abrir mão de amadurecer e ter que se armar justamente contra pessoas que você jamais quereria depor armas, escudos e espadas.


Mas, triste... Assim é: As pessoas mentem!


O último contato que mantive com minha prima que amo e respeito tanto foi na véspera de Natal, falamos sobre política, sobre seus pais que eu quero muito bem, sobre ela e o marido e eu lhe fiz uma pergunta que sempre faço:


-A cura da AIDS está próxima?


Ela, sensivel, poeta, amável e cientista apenas me respondeu:


-Não, continue usando camisinha!


E nas minhas vivências diárias, eu sempre sonhadora, insisto em dar um crédito às pessoas, em dar um voto de confiança, em acreditar porque não sei qual a razão, mas eu acho mesmo que as pessoas são humanistas, são verdadeiras, inteiras no que fazem.


E, sinceramente, eu acho bem mais fácil lidar com a verdade, você não corre os riscos da contradição e desmentir, enrolar, ludibriar tira tanta energia...


Mas volta e meia a frase de minha prima, cai pesada e verdadeira sobre meu coração:


As pessoas mentem.


Difícil, doloroso, triste é selecionar em quem acreditar.


E enquanto isso, o Vasco vence de 2x0 e o São Paulo de 1x0.


As pessoas vão viajar na véspera de mais um feriado.


O então presidente do Senado pede para sair, talvez porque como ele, as pessoas mentem.


Você se lembra de Clara Nunes e do dia 12 de outubro, do "manto azul da padroeira do Brasil", Nossa Senhora Aparecida.


Seu filho tem febre e você cuida.


Seu amigo mais presente diz que sente dores e você recomenda um médico.


Enquanto estréia o aprendizado da desconfiança pelo simples fato de que:


As pessoas mentem! E, lamentavelmente, não permanecem crianças.






Alyne Costa


Brumado, 11 de outubro de 2007

3 comments:

Braga e Poesia said...

adorei o texto. realista mas não pessimista, apenas o encontro com o inevitavel e me lembrei de um texto da grecia antiga:
a vida humana é um erro mas esse erro sera consertado no melhor dia do ser humano: o dia de sua morte.
Lá na grecia já se falava sobre a mentira que é a moioria absoluta das vidas humanas.Aline espero mais texto para o meu blog. vou publicar esse no domingo.

ilmara.silva said...

Lyne,
Adorei o texto, realmente "As pessoas mentem", mas como você mesma diz: "Temos que acreditar que as pessoas dizem a verdade, que são verdadeiras, que só têm boas intenções! Pois a partir do momento que passarmos a desconfiar de tudos e de todos,deixaremos também de acreditar na Vida!!!

João Esteves said...

Oi, cheguei aqui por mero acaso. Gostei de seu filosofar informal sobre assunto da maior importância, esse da verdade. Existe inclusive toda uma ciência (chama-se aletologia) que trata de questões a ela ligadas.
V a l e u !