Solidão de Domingo
Reparem que domingo é um dia de reflexão. Eu costumo refletir
aos domingos, acho que até me atrevo a dar uma volta pela manhã, mas chega uma
hora que o que eu quero mesmo é ficar só.
Essa solidão que já combina tão bem comigo e que eu costumo
ser eu mesma meu abrigo. E aprendi a gostar de rabiscar alguma coisa aos
domingos para que ele ecoe meus pensamentos, o sentir e às vezes faço alguma
coisa para comer.
Ai hoje me peguei com aquela frase clássica de Clarice acerca
da poda de defeitos. Todos nós temos um defeito que não podemos abrir mão, um
não, às vezes uma multidão. São defeitos de estimação, como temos amigos e
parentes prediletos. Livros, sabores e vícios. Temos coisas que preferimos e
isso é tão natural como não acertar o primeiro beijo.
Indecisão me dói na alma, mas eu pago o preço. Está todo
mundo querendo ir embora, como se Drummond sussurrasse: “José, para onde?”
Alguns lugares costumo conjugar no pretérito perfeito.
Já me doei de doer a pessoas que nem me lembro, mas saí de
órbita por um tempo e quando voltei eu não me encaixava mais no mesmo mundo,
nem no mesmo modo de viver, a minha fundação estava enferrujada e eu já não me
permitia mais recomeços.
Não sei se era eu que não me encaixava no mundo, ou o mundo
havia se fechado para mim, pelo menos, a velha forma de viver, já morrí tantas
vezes, talvez meu coração seja uma exposição de arte gótica, mas respeito
enormemente cada faceta do tempo que vivi, a minha criança curiosa, a
adolescente rebelde e a mulher criativa que nasceu, ou melhor, sobreviveu.
Ora ostra, ora um mosaico de fragmentos divididos entre
outras vidas, sinto um passado distante tão presente e todos os meus fantasmas
costumam me visitar aos domingos, preciso dialogar com eles...
Alyne Costa, 24/09/2023
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