Não me pegue, não me toque
Quando meu filho era ainda um bebê eu comprei naqueles
livreiros que existiam vendendo de porta em porta, uma caixinha com alguns
livrinhos da Disney e lia para ele durante as noites, antes de dormir.
Um desses livros contava a história de Bambi e, numas das
passagens, era dito pela mãe do personagem: “Se não tiver uma coisa boa para
dizer, não diga nada.”
Eu peguei essa máxima para mim, por muito tempo, e, como
também havia lido emprestado de Sandrinha, minha colega, Pollyana Menina e
Pollyana Moça, vivi com esse complexo por muitos anos. Sempre vendo o lado bom
das coisas, o lado positivo das pessoas, talvez também aquela base cristã que
me fazia acreditar que o bem que se faz, apaga-se o mal que se fez.
Certa ocasião, falei para um carinha que eu gostava sobre a “filosofria”
do livrinho de Bambi, ele me disse:
“ – Cuidado com essas histórias de Bambi, olhe para onde seu filho vai!”
Isso não importa, para onde quer que meu filho vá, só lhe
desejo ser um homem de bem, embora eu não sei até aonde eu seja uma mulher de
bem... Melhor esquecer essa história de bem, bem não deu muito certo na minha
vida.
O fato é que a vida, ela, inexoravelmente, me levou essa
singeleza das historinhas Disney, e aquele tempo que Belchior cantou que “Fez
comigo o mal que a força também faz”, me colocou em momento de me erre, me
poupe e me salte.
E, não me pegue, não me toque...
Certo que ninguém quer saber nem tem nada a ver, a vida me
trouxe pessoas maravilhosas, mas me trouxe também muita decepção.
Decepcionada, mas livre, não do aspecto jurídico, social, posto
que estamos todos emaranhados nessa prisão que é viver.
Sigo então com gotinhas de orvalho de esperança que na
contradança do baile me acorda de manhã, me faz preparar uma dose de café e
escrever alguma coisa, ora poesia que, embora não alimente o físico, acalanta a
alma.
Alyne Costa, 22/04/2024
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